Duas Horas na Prisão

Zero.

(ambas sentadas numa cadeira, como num comboio. olham pela janela, na direção do público, e de repente começam a conversar)

– Mas, e as palavras? O que fazemos das palavras?

– Não quero esconder nada. Não quero mentir-te, nem a mim.

– Preferia que não o fizesses.

– É sempre esta coisa. Enquanto tu estás aqui, a viver este momento, está alguém algures, a ler os teus pensamentos. A saber exatamente aquilo que tu estás a achar que sabes agora, e quando chegas lá, esse alguém até já publicou um post sobre isso hoje de manhã.

– Assim, a seco. Nem um chá tomamos nestes dias. Dói-nos um bocado o pescoço e depois lemos sobre alguém que ficou tetraplégica. É estonteante.

– Esta ideia da teoria da incerteza. Algo que não sabemos bem o quê está sempre á espreita numa esquina qualquer.

– E isso aterroriza-nos.

– Porquê?

– Lá está. Aquela coisa, que a gente não sabe bem o que é. Sempre algures, à espera que tropecemos numa qualquer pedra no caminho.

– E entretanto só podemos fingir que sabemos o que é que pisamos, ou ignorar que pisamos o chão que pisamos, porque se olharmos para baixo, abre-se logo um poço mais fundo, mais fundo, mais fundo… E perdemos vista de onde acabará esse fundo, perdemos a noção do quão alta vai ser a queda. E bastam dois metros para ficares tetraplégica. Basta uma má queda. Não ter tempo de corrigir a postura.

– E de repente…

– Pois. De repente somos funâmbulistas, a bambolear numa corda a não sei quantos metros do chão, e basta um passo em falso para estar tudo lixado. Boa sorte.

1

(aproximam-se e falam num tom muito íntimo, quase sussurante)

– Tens a certeza que era aqui?

– Sim. Quer dizer, sim. Acho que sim, que era.

– Mas não se parece nada com nada. Tinhas dito que seria diferente.

– Diferente como?

-Tinhas dito que não querias fingir. Espera tinhas tu dito, ou eu?

– Já não sei. Não te parece que estamos no sítio errado?

– Não. Quer dizer, não…. Acho que não.

– Então, parece-te que estamos no sítio certo?

– Depende. Ao que vínhamos?

– Vínhamos fazer uma leitura de uma peça. Falou-se numa capela, num sítio assim, sabes, de meditação.

– Mas isto não é exatamente isso. Quer dizer, com esta gente toda aqui… Tens a certeza que era isso?

– Foi o que me disseram.

– E então? Acreditas em tudo o que te dizem?

– Eu? Não. Quer dizer… acho que não.

– Achas? Ou tens a certeza?

– Acho que tenho a certeza. E daí? Importa se tenho a certeza ou não?

– Neste caso sim.

– Então porquê?

– Era suposto.

– Suposto?

– Sim, suposto.

– Não será que queres dizer que suposeste tu que seria assim? EU não fazia ideia do que vinha aqui fazer. Agora estou a ler um texto que alguém me deu para a mão e nem sei aonde isto vai parar.

– Vai que o texto agora mudava de assunto, ou assim…

– E punha-se a falar de cenas completamente diferentes.

– E cheio de didascálias difíceis de concretizar como: começa o fogo de artifício ou elas beijam-se durante 5 minutos…

Isso seria mesmo chato. Eu nem o conheço de lado nenhum para se por assim a dar ordens!

– Bem mas se fosse algoassim, eu nem me tinha voluntariado para isto. Quer dizer anda aqui uma pessoa a fazer favores ao mundo para depois nos lixarem a vida?

– Mas prontos… em princípio, acho que não deve haver nada disto. Seguramente isto é só um diálogo mesmo, e as pessoas com um bocado de jeito até estão ensonadas, que acabaram de almoçar, e até nem estão a ouvir.

– Será mesmo? Isso era mesmo bom que assim no fim nem batiam palmas. Isso deixa-me tão ansiosa, não imaginas.

– Pensei que as atrizes gostavam das palmas. Aliás, diz-se por aí que os artistas realmente comem é palmas, não fazem mais nenhuma refeição por mês. É jejum intermitente. Está na moda.

– Sim, acho que sim. Também ouvi qualquer coisa assim. Deve mesmo ter sido por isso que o governo pedia aos artistas que estivessem vários meses sem rendimento para receber apoios. Que as palmas não se tomam assim de barriga cheia, é preciso fazer jejum pelo menos desde o dia anterior.

– Aliás, duas salvas de palmas no mesmo dia podem ser fatais para uma atriz.

– Dizem que sim, dizem que sim! Ouvi até de uma artista que morreu de overdose de palmas. Estava viciada realmente. Não espanta que tenha morrido, pôr-se assim a trabalhar por palmas, sem comer.

– É por isso que acho que todos os artistas são degenerados. Porem-se assim em riscos de vida… Melhor seria que arranjassem uns contratos em vez de umas palmas não?

– É mas hoje em dia é assim, paga-se com sons de chuva.

– Realmente as palmas costumam soar como a chuva. Deve ser isso.

2

– Muito bem. E agora? O que fazemos com isto?
– Queres dizer…

– Esta situação em que nos metemos.

– Pois.

– Já estamos aqui faz algum tempo. É um pouco anti-climático tudo isto.

– Mas achas que em tão pouco tempo dava tempo para termos alguma relação?

– É assim, depende.

– De quê?

– Do nosso estado de espírito.

– Como é que estamos? (pergunta ao público, até obter algum tipo de resposta) Está tudo bem desse lado? Querem um refresco? Um rebuçado? Alguém tem algum comentário?

– Acho que estás a desviar a conversa. (para o público)Desculpem a minha colega, mas ela é nova nestas coisas, pensa que estamos a fazer uma peça de teatro participativa. Não, não é uma peça de teatro participativa, aliás isto de teatro não tem mesmo nada. Somos só nós aqui, a tentar fazer o mínimo possível. Aliás, vocês já atingiram o nirvana por esta altura, é o bom da meditação.

– Achas que eles estavam a meditar?

– Acho que devias preocupar-te menos com eles, e mais contigo.

– Isso não será um bocado agressivo de se dizer assim?

– Tu só sabes fazer perguntas agora?

– Sabias que és uma autêntica vespa?

– Eu TAMBÉM NÃO gosto nada de ti. OK? Só para que fique claro. NÂO GOSTO NADA DE TI.

– Nota-se. Obrigada pela parte que me toca. Vespa.

– ZZZZZZZZZZZZZZZZ

– Olha, está ali alguma coisa na parede.

– É o KANT.

– Tás a olhar pró kant!

(pausa)

Achavas mesmo que isto ia dar a algum lado? Essa atitude não me convence nem um bocado. És falsa até à ponta dos cabelos.

– Fodasse. Agora deixaste-me curiosa.

– Eu sei que estas coisas não se dizem na vida real, mas… já que estamos aqui, a fazer esta coisa, tenho mesmo que te dizer isto. Acho que… bem…

– Diz:

– Acho que estou a apaixonar-me por ti.

– Acho que estou a apaixonar-me por ti.

– Diz-me: Amas-me?

– Amas-me?

(juntam-se o mais perto que possam, numa posição confortável)

– Sim.

– Aprendo tanto contigo. É assim. Podias ser tudo o que quisesses, e eu ia querer ser igual.

– É.

– Queria tanto ter uma cena assim.

– É.

– Tens a certeza?

– Não.

– Mas queres?

– Sim.

(pausa. o espetáculo não acaba, mas dê-se tempo ao público de bater palmas, e depois recomece-se, só para provar o ponto)

3

Pensei que tinha acabado.

– Eu também.

– Eles também. Já estavam a começar a arrumar tudo. A pensar, oh pá: vou tomar o meu café fumar o meu cigarro. Não adorei, mas também não me deprimiu.

– É assim qualquer coisa que não dá bem para rir, mas também não dá vontade de chorar.

– É como se tivesses tomado anseolíticos e antidepressivos e estivesses a curtir aquela moca pela primeira vez antes de ir dormir.

– Não sei, nunca experimentei.

– Continuamos a desviar o assunto. Era suposto virmos aqui e tu pedires-me em casamento. Ou não? Mudaste de ideias?

– Não me lembrava disso. Combinámos isso quando?

– Antes de entrar acho eu.

– De certeza?

– Acho que sim.

– Mas não achas isso estranho? Aliás, casar? Eu? Contigo? Nem te conheço assim tão bem. Nem quero ficar presa a ti.

– Ah. Bom saber.

– Aliás desculpa, eu adoro-te bués, mas eu…

– Sim?

– Eu estou apaixonada por ela (aponta alguém do público)

– Ela?

– Sim, lamento. Eu amo-a há muitos anos. E quero ir viver com ela.

– Que pena. Pensei que quererias vir comigo.

– Não, desculpa amor.

– Não, não… Está tudo bem, tudo ok. Sem problema nenhum. (leva as mãos à cara, começa a soluçar)

Pronto, pronto. É melhor acabarmos com isto não achas?

– (continua a soluçar)

– (vai e abraça-a)

4

– Achas que podemos deizar isto assim? Está um bocado morto. Não chegamos a lado nenhum com esta conversa. Era suposto termos lembrado as pessoas de que lá fora está tudo a desabar. Estava no guião aqui um monte de coisas sobre a guerra no Yémen, os bombardeamentos, as mortes… As minas, os fascismos, as ditaduras… Os milhões de humanos em risco de passar fome, e os que já passaram o risco… Os iates dos mega-ricos, as favelas dos pobres. Estava aqui um monte de coisas pra se falar.

– E sim talvez ainda se fale sobre isso, no fim. Se dissermos isto no fim talvez ajude as pessoas a lembrarem-se só desta parte, já bem depois de terem batido palmas, e de nos terem dado de comer, que também há artistas a passar fome, mulheres e homens a comer palmas, só palmas o ano todo.

– E que também há pessoas que não são artistas, e que nem palmas recebem. Nem quando foi do covid lhes bateram palmas. Andaram aí a bater palmas nos hospitais, nas esquadras da polícia, nas varandas. Foi palmas a torto e a direito durante 10 minutos, a maior ovação alguma vez resgistada. Mas os pobres não querem saber das palmas tanto como os artistas ou os enfermeiros. Eles ainda não aderiram muito bem a essa coisa do jejum intermitente. Isso é um eufemismo para estar esfomeado, esfaimado, a morrer de fome, faminto.

– É uma treta neoliberal. Vêm os nutricionistas com aquela ladaínha de como toda a gente só devia comer um ovo e uma folha de alface por dia, e os ricos experimentam comer durante um mês em que fazem dieta, quase tão pouco como os pobres. Ou até menos. Isso faz com que eles se sintam muito bem, e voltem prontamente a comer grandes bitoques de carne de vaca nos restaurantes caros, no fim do mês, e da dieta.

– E entretanto a carne de vaca veio do Brazil.

– E a vaca foi alimentada com Soja.

– E a Soja foi plantada.

– E a floresta foi destruída para plantar a soja.

– A floresta foi destruída – a amazónia – para plantar a soja.

– E a soja foi para alimentar a vaca.

– E a vaca foi alimentada com soja, e foi morta a seguir.

– E foi morta para alimentar os humanos ricos.

– Que depois, para se sentirem melhor ainda, começam a comprar soja no supermercado também de vez em quando, porque está na moda.

– Espera mas não seria melhor comermos nós a soja do que as vacas?

– Talvez. Mas as vacas acabam por comer 90 porcento da soja.

– E nós 90 porcento das vacas.

– E entretanto, adeus amazónia, que já se faz tarde, precisamos de mais soja, para alimentar mais vacas, para alimentar mais humanos, que vão ficar com cancros e merdas por causa de andarem a comer demasiada carne. Ainda se se dignassem a caçar. Mas já nem isso os homens sabem fazer sem armas de fogo. Fracos, digo eu.

– Fazes alguma ideia de quantas vacas são cidadãs portuguesas?

– Queres dizer, quantas vacas portuguesas há em portugal?

– Sim tirando as emigradas e as imigrantes.

– Que normalmente chegam mortas e embaladas num plástico.

– Pois. Sabes?

– Não ao certo.

– Há mil milhões de vacas no mundo.

– Mas são mais porcos ainda do que vacas.

– A importância do porco: Cozinheiros de todo o mundo apreciam o porco, pela sua versatilidade, e usam-no de forma criativa. A carne de porco é geralmente mais barata do que a carne de vaca e é, de longe, o tipo de carne mais consumido no nosso país. Os porcos estão prontos para a matança entre os 6 a 8 meses e com peso a rondar 70 a 120kg.

– Um porco livre pode viver cerca de 12 anos.

– O intermarché diz que não, que são uns 6 meses.

– São uns 700 milhões de porcos no mundo.

-Incrível, 50 mil milhões de galinhas, nascidas e mortas todos os anos.

– Ou seja, cada ser humano come mais de 10 galinhas inteiras por ano?

– Há de ser por aí sim.

– Ou seja, uma galinha por mês?

– E 1/8 de vaca, e um décimo de porco.

– Bem, maravilha, mas estou cansada.

– É, também eu.

– Achas que esta gente quer saber das galinhas?

– Acho que não muito, mas pelo menos já conseguimos estragar-lhes o jantar.