Muros


Partindo da descrição que Né Barros faz da peça Muros do Balleteatro: “Muros. Muros de pedra e arame. Muros transparentes e de água. Muros psicológicos. Fantasmas e assombrações. Impedido de chegar ao outro, a outro lado. O outro que impede o outro. Trânsito infinito entre aqui e ali e nunca chegar. Corpo ferido, ferido por um tipo de vida, está isolado. Torna-se ele próprio obstáculo. Há uma espécie de imobilidade neste tráfego, trânsito, circulação alucinante. Este mundo material e imaterial que molda um corpo e o projeta numa condição limite, é o nosso ponto de partida.” [1]


Muros reais e fictícios, visíveis e invisíveis, que disrompem a espacialidade material e se tornam barreiras ‘suaves’ e divisoras, transversais, que atravessam dimensões espacio-temporais. A fronteira, moderna e altamente tecnológica que se materializa e esvai, encarnada por instituições como o SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) e a FRONTEX. Alguns anos atrás uma grave decisão da União Europeia passou praticamente despercebida: o plano para estabelecer uma polícia fronteiriça em toda a Europa para assegurar o isolamento do território da EU e prevenir assim o fluxo de imigrantes. Esta é a verdade da globalização: a construção de novos muros que guardam a prosperidade da Europa contra a onde de Imigrantes. A fantasia da ideia de uma europa branca sustém-se à custa das populações vivas que são impedidas de entrar. As vidas de milhares que foram perdidas no mediterrâneo são exatamente as vidas que foram consideradas não merecedoras de ser salvaguardadas. “Corpos que não se devem mover, são aqueles que não têm seguro. Eles são mantidos entre a invisibilidade, a espera e o apagamento, presos como estão em espaços fragmentados, tempo distendido e espera indefinida, como é o caso de Gaza” (Mbembe) [2]

O tempo distendido, os espaços fragmentados e a espera indefinida, por quem necessita passar os muros, e mesmo que ‘invisíveis’ ou ‘suaves’, impedem e apagam, Vidas Negras. O mar mediterrâneo como um cemitério em massa para migrantes. As fronteiras nos Aeroportos que disrompem a materialidade do espaço, criando barreiras suaves e altamente tecnológicas, fronteira prévia. A identidade biométrica como fronteira intra-corporal, impedindo alguns de passar, permitindo rápida e segura passagem a outros, considerados “mais merecedores” da vida, e assegurados por companhias de seguros. Há mais pessoas deslocadas hoje do que em qualquer outro momento na história. Pelo menos 80 milhões segundo a ONU. A FRONTEX considera o risco de 2020: “migrantes a auto-organizarem-se ou a ser ‘usados’ para desafiar regimes fronteiriços”. Numa notícia de ano novo, o SEF, posto em causa durante o passado ano pela alegada ‘morte de causas naturais’, que na verdade foi espancamento até à morte, anuncia mais duas apreensões nos aeroportos de Porto e Lisboa. Num dos casos foi decretado que o rapaz de 19 anos, ‘cidadão estrangeiro’, fosse conduzido à fronteira, “para efeitos de afastamento do território nacional.” Estas polícias e políticas, colocam vidas em risco, matam, aprisionam e destroem populações  vivas, tratando-as como alienígenas não merecedoras de respeito ou da própria
possibilidade de vida.

A instalação cumpre o seu destino: Uma sala do SEF, altamente controlada, tanto na entrada como na saída, e torna-se um labirítico pesadelo para cruzar pequenas distâncias. O espaço fragmenta-se, a espera é indefinida e o tempo distende. As pessoas caem, tropeçam, ficam presas e sentem-se oprimidas. Depois de sair uma vez, ninguém deseja voltar a entrar. Ninguém quer visitar um local assim. No entanto, a sua existência é real. O único caminho possível: abolição. Desmonta-se a intalação o mais rápido possível no fim da visita. O espaço desaparece.

Em Portugal, continuamos sem um debate público acerca destes locais e da sua desumanidade. Continuamos a ignorar a «crise» dos refugiados. Refugiamo-nos também, num riso leve, numa piada racista, num preconceito qualquer. Continuaremos lutando então, para que as pessoas comuns se indignem, contra a violência da Fontex e do SEF, até que estes sejam ABOLIDOS, e os refugiados BEM VINDES.

[1] Né Barros: “Muros”, balleteatro.pt/espectaculos/muros
[2] Mbembe, Achille “Borders in the age of networks”, youtube.com/watch?v=tFGjzG0lLW8

MUROS

Instalação Interdiciplinar, realizada na Biblioteca do Campus de Couros, Licenciatura em Teatro da U.Minho, Espaço e Performance

Inês de Carvalho (Docente)
Mi_
Ramoa
Francisco
Mariana
Inês